quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Havia no céu algumas nuvens, cinza nas extremidades. O mar chacoalhava levemente e uma brisa salgada roçava minhas orelhas. Na minha nuca ela encostou sua cabeça e logo tirou. Nossas costas estavam coladas e dava pra sentir sua respiração. Não sei se olhava o mar ou se estava de olhos fechados. Eu estava de olhos fechados, tenho certeza. Na minha frente só havia carros e construções. Meus ouvidos filtraram todos os sons e eu só ouvia o mar. Minhas costas dançavam com a respiração profunda. Tinha uma perna retraída e a outra procurava conforto na ondulação da areia. No final do meu braço esquerdo estava a mão dela e no final do seu braço direito estava a minha. Havia muito pouco pra se dizer. Na brisa senti um sorriso satisfeito que não poderia estar mentindo. Eu sorri.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Praia

-Eu queria poder retribuir. – disse, e tirou os lábios insensíveis de perto daquela orelha, onde o sol batia, parcialmente impedido pelo poste que estava na tangente da rua. Ela baixou os olhos com certa razão. Se é que há razão em algo. Enquanto ela procurava algo para prender o olhar, correndo os olhos rapidamente pelo painel, desatou o cinto e ouviu-se o barulho staccato da porta abrindo. Não disse mais nada e saiu.


Qualquer forma de amor é insensata e, tudo aquilo que se acha de mais puro sentimento, provavelmente não é amor. Dar nome às coisas, sintetizá-las e universalizá-las no senso comum não as abrange o sentido. A vaidade de saber tudo acaba por insensibilizar qualquer percepção e vivência.

Couto girou a chave e se separou do mundo. Passou a mão pelo cabelo enquanto cobria com outros pensamentos aqueles que queria evitar.

Visão de explicação (já) esquecida

Aproveita enquanto o dia amanhece, não tem solução
Aflitos, seguramos respostas pré-fabricadas
Nossos lábios cerrados sob o céu laranja
Estamos todos aí, estamos sendo extintos pelas declarações.

Queixa #1

Arrependo-me de tudo,
Porque meu primeiro passo foi em falso
E eu sou minha própria conseqüência inerte.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Wasteland

Atrás daquela porta, uma porta sem parede que a contornasse, havia um sorriso estranho, permanente e inverossímil. Sorri para a fechada porta. Eu, que tinha muito medo, andei desconfiado e lento. O céu já estava nublado e as nuvens, outrora densas, rapidamente dissipavam-se. O céu era dum laranja óbvio. Alcancei a maçaneta, e não faria sentido girá-la, mas o fiz. Se não fizesse sentido fazer o contrário do que acabei fazendo, teria o feito. O clima naquela sala não mudou com a nova passagem. Não havia paredes, nem teto, só a porta e eu. E havia também um tapete absurdo que eu teria citado antes, não fosse absurdo. No rosto estático, estava o sorriso estático. Uma gota de suor lhe contornava a têmpora direita. Não era um sorriso bonito, mas parecia ser sincero. Então não era para a porta que sorria, talvez para algo armazenado atrás dos olhos. As bochechas não tremiam, a garganta não pulsava. Não havia nada nos olhos. Olhavam para si, para o nada, mas o olhar pouco importava. Até quis dizer algo, mas temi não ser ouvido. Para economizar empenho, resolvi não fazer nada. Fiquei rapidamente entediado. Pus-me a acenar diante dos olhos, num movimento semicircular. Não reagia.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Noites de Jazz - "I Walked Bud", "Blue Monk" e "'Round Midnight"

Eu já ficava irreverente diante do mundo que girava. E eu conseguia ver que girava. Ao meu redor. Eu, o centro de tudo. Terá sido o uísque? O sangue em minhas mãos nem pingava de tão seco. Lembro que gostava daquele cheiro amargo, suave bolor, aquele negócio - não meu - coagulando em minhas mãos. Sentia-me vazio e infinito.
A música dizia “… Oscar played a mean sax/Mr. Byers blew a mean axe/Monk was thumping…” quando eu vi que ela dormia. Na hora do solo de Monk eu preparava uma dose modesta de uísque, com pouco gelo, para que eu pudesse acompanhar a bateria, solando com o copo. Uma vontade de comer veio súbita, assim como partiu. Levei o copo à boca e por um segundo inalei aquele ar frio e seco de dentro do copo, um odor metálico atravessou minhas narinas e penetrou no meu cérebro me fazendo não pensar naquele instante. Bebi num gole só e não pude evitar a contração dos músculos do meu rosto, dos meus ombros e do tórax. Preparei outra dose, firmei o lençol que prendi à cintura e fui até a cozinha achar o que fazer. A música já era outra.
Monk se ocupava com um Monge Azul enquanto um frio glacial subia pela minha espinha, contornava meus braços e fazia meus dedos estremecerem. Larguei o copo no balcão e sentei num banco alto de madeira.
Meus pensamentos ricocheteavam nas paredes do meu crânio e, realmente, foi uma grande noite. Lembrei do japonês que nos serviu o café na estação e de que o uísque estava acabando. Acendi um cigarro e, naquela fumaça densa, vi meus pensamentos amorfos. Vi a incoerência dos acontecimentos. Não pensei por mais um instante e meus pensamentos voltaram a enlouquecer. Ela me pressionava há muito para algo que eu não compreendia. Dei um gole no uísque e traguei o cigarro. Eu já não sentia culpa pelo futuro. Sabia o que devia fazer, bastava-me fazê-lo. Acabei num gole o uísque e peguei uma das facas do faqueiro.
Passei pela sala e na outra mão trouxe a garrafa de uísque. Minhas pernas não estremeciam, nem minha convicção. Entrei no quarto em silêncio e ela de bruços. Era domingo e estava chovendo.
- Amor, preparou algo para comermos? – aquela voz rouca e suave como cotelê velho não me fez mudar de idéia.
- Sim, baby! Eis aqui o desjejum. – larguei a garrafa no pé da cama e pulei em cima dela, tapando-lhe a boca com uma das mãos e prontamente com a outra rocei a faca no pescoço dela, fazendo um suave corte na ida e um colericamente profundo na volta. Seus braços não tiveram tempo de reagir sendo as suas mãos as únicas a terem se manifestado, abrindo e enrijecendo os dedos de forma insana como se por ali fluísse o sangue e como se ali tivesse sido o corte. Larguei sua cabeça e a música já era outra.
Sentei-me aos pés da cama e dei um gole da garrafa de uísque. Meu cigarro na cozinha já devia ter-se apagado no cinzeiro. Coisa que aquela ali não teria feito sem mim.

N.A.: Músicas interpretadas por Thelonious Monk Quartet, exceto In Walked Bud por Thelonious Monk Quartet e Bud Powell.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Past Liliu

Não vejo mais os lírios de antigamente

Não pereciam a qualquer geada

Ou enrubesciam ao roubar da chuva.

 

Não sinto mais o cheiro de anteontem,

O gosto amargo do rio de passadas águas

Meu paraíso desfez-se em passado e trapos,

Não há jangadas que me tirem do horror impuro.

 

Eu quero lírios pra dar-te no novo dia,

Já não se nascem outros como de outrora,

Minha pretensão é crua e malevolente,

Como um desejo imerso no cego orgulho.

 

Contemplas casas e dizes que serão suas,

Eu choro e lembro a casa de antigamente,

Aroma doce, hortênsias e hortelãs;

Que trasanteontem já cria não ser mais minha.