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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Para ler dormindo.

    Estão todos certos; estão todos errados. Sonos profundos, concomitantes roncares sinceros.Cada percepção, após o despertar, a maior expressão da verdade. No entanto, carregam o peso dos seus anos e dos milênios alheios; os bolsos são pequenos para as mãos inquietas e não há papel no mundo que baste para transcrever seus pensamentos, porque quem vela o sono de um, vela o sono de todos.
    Hoje, quando retirarem-se magoados de seus galpões ensopados de lembranças pesadas, desfalecerão à alvorada calma e vil que virá os cegar. Verão, pois, o ontem denovo, e, sem saber, verão também o amanhã. Estarão amaldiçoados por seus companheiros eternos: passado e especulações. Presos no eterno tubo helicoidal do tempo que povoam sem saber porquê. Em cada canto estarão condenados a ver a si mesmos, e em cada novidade, o óbvio.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Tédio matinal segunda-feira (04-04-11)

As pessoas se arrastando no passeio deixam, ao observador, subentendida sua insatisfação com o destino do arrasto, sua casa ou trabalho; porque se arrastam na ida, no início da manhã, e na volta, no final da tarde. Eu costuro entre elas e vejo seus rostos de tédio, e é um tédio contra todos, que bloqueia o mundo com seus punhos sonolentos. Elas poderiam estar contemplando o mundo, você diria, mas caminham num estado de neutralidade e impermeabilidade que isto nem poderia ser cogitado. Há aqueles que caminham sem rumo e estes também estão entediados; poderiam se dar ao luxo da autocontemplação ou da exocontemplação, mas não o fazem. É possível que este estado de espírito seja um fenômeno de tráfego - no ir e vir não se tem tempo para pensar e há descordenação em caminhar e esboçar satisfação com algo ao mesmo tempo -, assim como é possível que não.

sábado, 14 de maio de 2011

DDA, confusão e outros espirros reflexivos.

Tentar explicar qualquer coisa até o fundo da sua essência requer um amplo conhecimento sobre muitas coisas. De outra forma não seria possível fazer comparações equivocadas e se confortar com uma resposta razoável no fim de uma noite sorumbática. Procurar a certeza nas coisas etéreas é submergir no paradoxo de existir de forma direcionada; a cada dia o indivíduo acorda um. O indivíduo 'k' acorda um a cada dia, pelo menos. Hoje ele poderia dizer que te ama para sempre e ser sincero, mesmo que amanhã viesse a te abandonar, na sexta-feira amasse outra e sábado voltasse a te amar perpetuamente até a próxima segunda-feira. Não quero ser pontual nesta questão de tentar explicar o que é, numa percepção pessoal, tentar explicar alguma coisa até a sua essência. Falar de amor é muito complexo - e os indivíduos sempre acham que sabem tudo sobre o amor, ou que eles não têm sorte no amor, ou que estão completamente resolvidos, mas a esta questão eu gostaria de voltar mais adiante, ou nunca mais, para que não se crie uma expectativa de que eu vá descrever aqui minha percepção unicamente sobre os relacionamentos, ou os não relacionamentos que levam ao amor.

Ser genérico é tudo que eu quero agora. Gostaria de poder subtrair a especialidade necessária para se entender as coisas e criar uma só ciência que explicasse o mundo, as relações e o barulho que o meu ventilador faz e porque ele não funciona direito; mas no momento histórico, isso é improvável. O primeiro passo para qualquer ciência, acredito, é a curiosidade. Mas a curiosidade matou o gato e provavelmente me mataria com uma descarga elétrica, ou o desencarnar de um adormecido demônio que reside nos ventiladores, caso eu enfiasse uma chave de fenda no meu ventilador ainda ligado. O que eu quero dizer é que não basta apenas querer saber sobre algo, mesmo que você queira com muita força, porque uma verdade não vai se revelar em um musical de quatro atos com intervalo para café. É preciso garimpar principalmente nas periferias, pois, a essência é, por via de regra (não que exista uma), ininteligível e são as camadas superficiais que nos ensinam mais amplamente e genericamente sobre as coisas, de modo que possamos entender posteriormente uma coisa específica e explicá-la até sua essência, mesmo que não a conheçamos essencialmente. Entender o miolo das coisas levaria o indivíduo 'k' a uma especialidade desnecessária, a descrer em tudo que fosse externo a sua especialidade. O que eu quero dizer é que não existe um clímax determinante em toda existência; o cara não vai simplesmente abdicar de toda uma generalidade de conclusões porque de uma hora para outra ele teve uma visão e resolveu se tornar um especialista e negligenciar todo o universo. É admirável, numa análise moral, que pessoas sacrifiquem suas existências para que haja especialistas no mundo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

02/02/11

Porque os dias já nasciam todos iguais há algum tempo, ela se deitou mais uma vez como sempre se deitava àquele horário naquele dia. Era uma tarde smooth jazz com pessoas smooth jazz, todas lá fora. Havia cansaço nos seus lábios proeminentes que não formavam palavra. Havia resolução na disposição dos móveis do quarto, mas aquilo era uma forma de maquiar seus sentimentos sempre fervilhantes. O impulso que a fez se jogar sobre os lençóis e acolchoados cuidadosamente escolhidos, não foi o que a fez decorar o quarto. Ela tinha percepção. Sabia que atuava e o quanto. Eram sete e dezesseis do horário de verão infernal. Das têmporas de todas as pessoas do universo parecia estar escorrendo suor e desânimo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

79 - Au

As pepitas de ouro misturadas com metais menos atraentes, transformadas em pulseiras bem acabadas, irradiam o sol e as luzes exageradas para olhares seletivos que as procuram como suínos ansiosos por ração de milho; atrás das vitrines excessivamente polidas que não refletem o próprio espectador, descansam em prateleiras carregadas de adornos indutivos e filosofias de vida como um fast food existencial. Atenuam a algazarra humana, convidando adeptos do brilho incessante a silenciar-se diante do velho amor táctil e redundantemente platônico, a fazer salivar seus bolsos e a regozijar-se no prazer eterno de guardar os résumés sentimentais em prateleiras atulhadas com ex-sonhos e roupas que não serviram depois do exagero no foie gras (noutra terça-feira, insignificante como esta, porém úmida, passada sob a sombra de um carvalho que foi transferido de uma reserva federal para o pacífico jardim reservado onde poderia competir com alucinações olfativas causadas pelo exagero de vinho e meticulosas especulações sobre quem realmente teve culpa pelo corte irregular da grama perto do muro leste). Os detalhes foram traçados por um ourives miserável e arrogante, cujas mãos temem a ausência do talhar diário, do construir salva-vidas, do fabricar significados; ninguém se lembrará dele.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Heteronomia (um brevíssimo esboço do que pode vir a ser)

Heteronomia só é vício do outro lado da rua. Na calçada vitrine. Do lado de cá não é vício, tampouco virtude; é imperceptível. Também não chega a ser imperceptível no sentido que não possamos perceber, mas que não queremos vir a perceber. O indivíduo crê, estupidamente, na sua autodeterminação; crê que além de ser a própria bússola é, também, a própria jangada e correnteza. Isso é uma falácia de pessoas previamene untadas com vontades implantadas e desejos coletivos. Não creio que seja uma falha de caráter assentir inertemente ou ajoelhar-se diante do cetro da realeza (seja o que for a realeza); mas percebo que é a mais poética virtude o deslocar-se ao ermo da autodeterminação plena.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Percepção desconexa com recheio de alegorias desnecessárias.

O beijo prefacial é algo inconsequente. Não quero estabelecer que se deva deliberar profundamente um primeiro beijo; é corriqueiro que pelo menos um, após longa ou leviana reflexão, venha com a motivação adequada. Delibera-se no movimento sutil, na percepção do movimento alheio; mas é uma deliberação cega, sem propósito filosófico. Aquele que beija – futura vítima da paranóia e outras catástrofes existenciais - submete-se ao jugo da sorte. Alea jacta est!

Pode ser simples troca de fluido, mas não o é quando é mais que isso. Transforma o impulso hedonista em necessidade vital (não que não o seja). A razão se encolhe no canto do claustro, tremendo e temendo a obsessão que a encara com violência, a esquizofrenia que ricocheteia nas paredes e um palhaço devidamente trajado e triste que exibe-se com arrogância do lado de lá do espelho. Mas pode ser uma simples troca de fluidos. Um salto do precipício com uma corda presa aos pés. E daí é um outro horror mais confortável, porque a razão olha para os lados e coça a cabeça enquanto seus três companheiros habitam um cômodo desconhecido. O fracasso parcial. O que se teme é fruto do mesmo objeto que emana o que se procura. 

"Pobres amantes graciosamente traumatizados e insones, proíbo-vos graça, pois sois miseráveis incompletos. Senti a brisa que antecede a tempestade e vos resigneis. A verdade não está lá fora.”, esbravejou o palhaço do outro lado do espelho.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Havia no céu algumas nuvens, cinza nas extremidades. O mar chacoalhava levemente e uma brisa salgada roçava minhas orelhas. Na minha nuca ela encostou sua cabeça e logo tirou. Nossas costas estavam coladas e dava pra sentir sua respiração. Não sei se olhava o mar ou se estava de olhos fechados. Eu estava de olhos fechados, tenho certeza. Na minha frente só havia carros e construções. Meus ouvidos filtraram todos os sons e eu só ouvia o mar. Minhas costas dançavam com a respiração profunda. Tinha uma perna retraída e a outra procurava conforto na ondulação da areia. No final do meu braço esquerdo estava a mão dela e no final do seu braço direito estava a minha. Havia muito pouco pra se dizer. Na brisa senti um sorriso satisfeito que não poderia estar mentindo. Eu sorri.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Praia

-Eu queria poder retribuir. – disse, e tirou os lábios insensíveis de perto daquela orelha, onde o sol batia, parcialmente impedido pelo poste que estava na tangente da rua. Ela baixou os olhos com certa razão. Se é que há razão em algo. Enquanto ela procurava algo para prender o olhar, correndo os olhos rapidamente pelo painel, desatou o cinto e ouviu-se o barulho staccato da porta abrindo. Não disse mais nada e saiu.


Qualquer forma de amor é insensata e, tudo aquilo que se acha de mais puro sentimento, provavelmente não é amor. Dar nome às coisas, sintetizá-las e universalizá-las no senso comum não as abrange o sentido. A vaidade de saber tudo acaba por insensibilizar qualquer percepção e vivência.

Couto girou a chave e se separou do mundo. Passou a mão pelo cabelo enquanto cobria com outros pensamentos aqueles que queria evitar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Wasteland

Atrás daquela porta, uma porta sem parede que a contornasse, havia um sorriso estranho, permanente e inverossímil. Sorri para a fechada porta. Eu, que tinha muito medo, andei desconfiado e lento. O céu já estava nublado e as nuvens, outrora densas, rapidamente dissipavam-se. O céu era dum laranja óbvio. Alcancei a maçaneta, e não faria sentido girá-la, mas o fiz. Se não fizesse sentido fazer o contrário do que acabei fazendo, teria o feito. O clima naquela sala não mudou com a nova passagem. Não havia paredes, nem teto, só a porta e eu. E havia também um tapete absurdo que eu teria citado antes, não fosse absurdo. No rosto estático, estava o sorriso estático. Uma gota de suor lhe contornava a têmpora direita. Não era um sorriso bonito, mas parecia ser sincero. Então não era para a porta que sorria, talvez para algo armazenado atrás dos olhos. As bochechas não tremiam, a garganta não pulsava. Não havia nada nos olhos. Olhavam para si, para o nada, mas o olhar pouco importava. Até quis dizer algo, mas temi não ser ouvido. Para economizar empenho, resolvi não fazer nada. Fiquei rapidamente entediado. Pus-me a acenar diante dos olhos, num movimento semicircular. Não reagia.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Noites de Jazz - "I Walked Bud", "Blue Monk" e "'Round Midnight"

Eu já ficava irreverente diante do mundo que girava. E eu conseguia ver que girava. Ao meu redor. Eu, o centro de tudo. Terá sido o uísque? O sangue em minhas mãos nem pingava de tão seco. Lembro que gostava daquele cheiro amargo, suave bolor, aquele negócio - não meu - coagulando em minhas mãos. Sentia-me vazio e infinito.
A música dizia “… Oscar played a mean sax/Mr. Byers blew a mean axe/Monk was thumping…” quando eu vi que ela dormia. Na hora do solo de Monk eu preparava uma dose modesta de uísque, com pouco gelo, para que eu pudesse acompanhar a bateria, solando com o copo. Uma vontade de comer veio súbita, assim como partiu. Levei o copo à boca e por um segundo inalei aquele ar frio e seco de dentro do copo, um odor metálico atravessou minhas narinas e penetrou no meu cérebro me fazendo não pensar naquele instante. Bebi num gole só e não pude evitar a contração dos músculos do meu rosto, dos meus ombros e do tórax. Preparei outra dose, firmei o lençol que prendi à cintura e fui até a cozinha achar o que fazer. A música já era outra.
Monk se ocupava com um Monge Azul enquanto um frio glacial subia pela minha espinha, contornava meus braços e fazia meus dedos estremecerem. Larguei o copo no balcão e sentei num banco alto de madeira.
Meus pensamentos ricocheteavam nas paredes do meu crânio e, realmente, foi uma grande noite. Lembrei do japonês que nos serviu o café na estação e de que o uísque estava acabando. Acendi um cigarro e, naquela fumaça densa, vi meus pensamentos amorfos. Vi a incoerência dos acontecimentos. Não pensei por mais um instante e meus pensamentos voltaram a enlouquecer. Ela me pressionava há muito para algo que eu não compreendia. Dei um gole no uísque e traguei o cigarro. Eu já não sentia culpa pelo futuro. Sabia o que devia fazer, bastava-me fazê-lo. Acabei num gole o uísque e peguei uma das facas do faqueiro.
Passei pela sala e na outra mão trouxe a garrafa de uísque. Minhas pernas não estremeciam, nem minha convicção. Entrei no quarto em silêncio e ela de bruços. Era domingo e estava chovendo.
- Amor, preparou algo para comermos? – aquela voz rouca e suave como cotelê velho não me fez mudar de idéia.
- Sim, baby! Eis aqui o desjejum. – larguei a garrafa no pé da cama e pulei em cima dela, tapando-lhe a boca com uma das mãos e prontamente com a outra rocei a faca no pescoço dela, fazendo um suave corte na ida e um colericamente profundo na volta. Seus braços não tiveram tempo de reagir sendo as suas mãos as únicas a terem se manifestado, abrindo e enrijecendo os dedos de forma insana como se por ali fluísse o sangue e como se ali tivesse sido o corte. Larguei sua cabeça e a música já era outra.
Sentei-me aos pés da cama e dei um gole da garrafa de uísque. Meu cigarro na cozinha já devia ter-se apagado no cinzeiro. Coisa que aquela ali não teria feito sem mim.

N.A.: Músicas interpretadas por Thelonious Monk Quartet, exceto In Walked Bud por Thelonious Monk Quartet e Bud Powell.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Noites de Jazz - Malditas Bromélias - Fragmento

       À luz daquele poste via as pessoas caminharem desconfiadas pela avenida. Eram poucas e a luz fraca, por isso a incerteza. Meus braços já estavam dormentes, dado o adiantar das horas (passava das duas da madrugada), embora não tivesse sono ou cansaço, sentia meu corpo moído por dentro, minha pele formigava e ficava inseguro diante das pessoas. Afastei-me do poste e da luz e, variando entre calçada e rua, cheguei a algum lugar inteligível, que não tentasse me decifrar nem que precisasse ser decifrado. Sentei-me a uma mesa no canto do bar. A população dali não era nem tão grande para se sentir desconfortável nem pequena demais ao ponto de parecerem íntimos aqueles que estavam. Pude finalmente relaxar. Pedi ao garçom que me trouxesse o cardápio, e assim o fez com certa demora. Perguntei se haveria algo. Respondeu que sim, um jazz-trio estava tocando. Rotulou-me um cara de sorte, devido ao horário. Beberia uma cerveja em outra ocasião, mas o jazz é para mim extremamente diurético, e me permite beber um uísque. Qualquer nacional me satisfaria. Sem gelo, falei.

            Lá fora começara a chover. Perfeito, pensei. Sempre associo o jazz a lugares quase imateriais, praticamente etéreos. A chuva, um néon num ambiente esfumaçado, é quase como se as paredes tivessem sentimentos ao invés de cimento. Desconstruo-me no jazz, apesar de Monk ser o maior arquiteto que já houve. Chegou, finalmente, meu uísque. Momento oportuno, a banda já se preparava para o último ato. Provavelmente tocariam mais duas peças, mas como tudo que nos rodeia, era imprevisível. Esperei. O baixo soou os primeiros acordes. O chimbal começou a chiar. Depois o piano. Senti um perfume diferente quando se deu a entrada do piano. “Estranho”, pensei, “instrumentos com odores”. Nada disso. Uma mão feminina no meu ombro. “Que inconveniente”. O momento demandava o silêncio. Estava enganando a mim mesmo. Inclinei levemente a cabeça e reconheci o rosto na penumbra. Era uma velha conhecida, praticamente crescemos juntos no mesmo bairro. Não seria tão ruim, afinal, alguma companhia. Levantei-me com algum esforço, apoiando-me na cadeira, beijei-lhe a face com a outra mão no seu ombro. Convidei-a para se juntar a mim. Fê-lo.

            De incerto na solidão da noite passei a construir, com certa deselegância, algum plano futuro. Perguntei se beberia, disse que sim. Perguntei o quê e disse que o mesmo que eu. Demandei do garçom outro caubói. Enquanto nossos raciocínios tentavam sincronizar, a banda desferia golpes suaves contra seus instrumentos. Eu queria, contudo, não deixar transparecer qualquer intenção de minha parte para com ela.

            - De onde vem, Ana? – perguntei pra introduzir qualquer colóquio.

            - Sneguer. – secamente me largou o nome do bar que eu detestava.

            Não parecia de certa forma entusiasmada ou, pelo menos, inclinada a qualquer conversação. “Seja”, pensei, fiquei flutuando como ela naquele espaço. Agora, afogado nos meus pensamentos, olhava de canto para ela enquanto recebia com um sorriso tímido, quase imperceptível o uísque. Que bela combinação de traços. Imagino se seria possível idealizar qualquer proporção como esta, mesmo por Michelangelo.

            Acendi um cigarro, pedi licença e levantei. Minhas pernas já não doíam, e qualquer coisa que pudesse estar me incomodando foi subtraída da minha cabeça, lavada pela primeira dose. Deslizei até o banheiro a passos lentos. Já no interior daquele cômodo rústico que parecia um improviso, dei-me por rei do lugar e me tranquei lá dentro. Passei uma água no rosto e pensei, “Pois deve sê-la”, não que eu pudesse escolher tanto minhas companhias. Olhei-me no espelho e estava até apresentável. Quais seriam suas pretensões? Malditas mulheres.