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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Máscara

As pedras da calçada são postas alinhadas
para esconder desvios evidentes;
para evitar pausas (sóbrias frases não ditas no caminho)
adiadas até o canto do próximo passarinho.

E as construções que engolem as estrelas -
assim como o progresso, as luzes, os redemoinhos de crédito -
inclinam-se convictas sobre as cabeças baixas,
que procuram na noite, na calçada e nos próprios bolsos
um vórtice que as engula e não pergunte quanto.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poema complementar. Como traçar um andróide!

Andróides copulam; tentam multiplicar a apatia humana.
Servem-se dos restos de existência jogados sobre os relógios acelerados.
Põem-se inertes na presença da senhoria, indivíduos autômatos, sentimentos sintéticos.
Copulam nos intervalos, nas audiências de grandes processos.
Os ventiladores afagam suas ombreiras;
milhares de trodos: burocracias do amor.
A matemática do prazer carnal, do prazer despido, da súbita mudança de endereço.
Uma nova parceria. Um fluido sabor metano.

domingo, 12 de junho de 2011

Setenta e três

nós que não sabemos os dias dos santos,
os feriados nacionais e os hinos da comunidade;
somos as crianças a titubear no mundo.
estamos podres de momentos felizes.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Abandonei a métrica (adeus querida amiga)

O Bolero de Ravel é a melhor música para se ouvir
deitado em um tapete, olhando pro teto.
Aqui na cidade uns só precisam de um tapete
e outros de um teto.
Logo ali, no canto, quem já os possui,
só precisa aprender a usar um tapete e um teto.
E arranjar um bom toca-fitas.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Domingo de madrugada (percepções desconexas sobre assuntos diversos)

A massa tirânica, pensamentos estilhaçados, segue silenciosa - olhares de reprovação.
Há solidão no excesso de liberdade, e padrões no amanhecer.
As tosses são afinadas e dispersam no ar poluído, aceitável e erudito do homem comum.
Existe manhã nos olhos institucionais dos burocratas.
As domésticas deslizam nos anteontes dos quais não participaram,
gozam de uma felicidade que lhes ergue o nariz.
São virtuais no espaço que ocupam, na percepção que lhes permite o sábado.
São crepúsculos outonais nos edredons alheios.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Rats

No teto infecundo ratos embriagados gritam em esparsos raios de luz.
Giram, decepcionados, nos estalos do relógio, miríades de sonhos.
Os roedores desprezam o veneno em busca do supremo absurdo,
colidem uns nos outros nos intervalos escuros do sótão abandonado.
Despedem-se do sol dentro dos escafandros e mergulham na poeira adormecida.
Apagam as lições de vida do patriarca e o que resta é o desespero cor-de-rosa.
Pobres aqueles que ingeriram a verdade.

Vórtice

Estou livre até o pescoço;
acima, sou aparato de vingança alheia.
As colheres tilintam agonizantes na cozinha,
"alimentaremos bocas para que?", dizem elas.
Cegos caminham convictos e estamos azul-acinzentados previamente,
por esta liberdade toráxica e tediosa.
O cérebro sufocado num enxame de ideias descartadas e vagantes.
Numa outra realidade eu seria um leito vago;
um objeto horizontal esperando uma razão de ser
(não mais do que sou hoje).
As pombas sorriem nos umbrais mal pintados e memorizam o perímetro.

Louros

Uma inspirada profunda
e os olhos se fecham no incessante ruído da urbe,
não mais me cega o sol outonal e vem,
tímido, em gotículas, o vento me refrescar os braços.
Aos olhos se decompõem a rua e os semáforos;
e um sinal aberto é sempre um bom sinal.
Seguem, matinais, as pernas cobertas de jeans,
alternando-se convictas e tensas.
A brisa não causa comoção
e quase não há brisa onde esta ainda comove.
É natural aprazer-me as coisas naturais
e delas subtrair a verdadeira existência;
mas como decantar o mundo ou pô-lo em repouso?
ou livrar-me do paradoxo de que tudo é natural e nada é natural?
Eu sou você, na mesma proporção que você é você.
Vivo neste planeta e mereço tudo que dele advém;
não merecesse, por que haveria de, em todo ele, viver?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Monstro

Seu cérebro contém mil vontades e desejos irrealizáveis;
pela traquéia saem mil contradições humanas, todas aceitas e reprimidas.
No estômago guarda a miséria dos crentes e a saciedade dos clérigos.
Mil pragas açoitaram a pele e mil brisas lhe vieram refrescar da ardência.
Nos braços: fábricas, forjas, arados
repetindo os mesmos movimento e obra, denominando-os diversamente.
Seus pés feitos de carruagens, foguetes, carros e cavalos
rumando, sem cessar, para a incerteza.
Nos olhos amontoam-se as cameras, os televisores e a poesia,
que apontam para todos os lados,
distraídos e hedônicos, estão obcecados pela trajetória.

terça-feira, 5 de abril de 2011

The Cake is a Lie

Enfiar-me num claustro monástico
e resolver todos os meus problemas.
Os religiosos não são seres universais;
são camundongos trafegando num labirinto
and the cake is a lie.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Crepúsculo em 17 de março

Desfaço as malas no presente absurdo e agonizante,
Pensamentos poluem inocentes papéis arranjados simetricamente.
O pânico comunitário ocupa na próxima esquina o lugar das mulheres impacientes em seus sapatos determinantes.
Na paisagem trêmula vê-se meninos arrogantes ostentando seus devices.
A tecnologia obscena exibe os seios para o futuro imberbe.
Num aquário, as juízas do invisível gozam perpétuas verdades.
Itinerários são traçados sobre o arcabouço autocontemplativo sem que este se ilumine.
Lobos aglomeram-se nos bares implorando por saúde e desfazem seu rosto suado num colérico sorriso.

Num período fronteiriço onde há paz social e intranquilidade,
onde a esquizofrenia urbana se une ao otimismo dos ébrios:
as pessoas de acetato subordinam-se ao cansaço e projetam seu mau-humor no ir e vir das suas contradições.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Japas

Quero deitar no auge dos anos oitenta e olhar para você numa crise de antropofobia:
Onde colônias humanas se retraem nas segundas-feiras estéreis;
Onde japas sanguessugas destroem os condomínios de culturas obsoletas;
Onde os sábados são nauseabundos e os suicídios controlados;
Onde é imoral discutir em sobriedade sobre a frustração da existência.

Os mágicos congelam a audiência em estado de êxtase.
As pombas trafegam sob os automóveis emocionalmente envolvidos.
Janelas escondem o que é abstrato na rua e os amantes se jogam dos meios-fios dentro dos sinais vermelhos.

Reféns do mainstream deleitam-se na comodidade das poltronas razoavelmente confortáveis em seus apartamentos ainda não entregues,
Sorriem para suas etiquetas bordadas numa senzala asiática infestada de fumaça de incenso e cigarros baratos,
Percebem sua disfunção sináptica e culpam todos os governos do mundo,
Despem-se nos corredores das franquias estrangeiras e exibem-se nas vitrines domésticas com seus pertences restaurados.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

La Bureaucratie

Atravesso as portas giratórias ouvindo absurdos genéricos sobre a existência.
Os guardas armados se distraem com as morenaças e eu posso tomar de assalto toda a frustração do mundo.
As asperezas vagueiam nos elevadores de impaciência,
Divisórias permanecem tranquilas discutindo Camus enquanto burocratas eunucos trafegam e tramitam suas preces.
Há mulheres deslizando em suas advertências e homens de aparência apressada e, paradoxalmente, autocrática.
Nada compõe mais absurdamente o ambiente que as secretárias arrogantes sentadas sobre as graduações alheias e observando seus impérios com desprezo.
Ad infinitum os telefones tocam imbecis, planilhas compreendem a mácula da raça humana e os supervisores subtraem das prateleiras sujas o último remédio para o tédio eterno de existir.

Os setores se empurram uns aos outros dos precipícios tardios.
Colinas se abrem no horizonte através do vidro pelo qual imaginam arremessar-se os infelizes duendes do funcionalismo.
Os leitos estão vazios pois ninguém se dá ao trabalho de realmente adoecer.
As semanas sangram nos meio-fios escorregadios e o Deus-Sol é ovacionado ao beber seu sangue.
Não há contradição na apatia.
Flatline. Flatline. Flatline.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Visão de Fevereiro I

Os telefones injetam carícias
e os nefelibatas matutos adoram seus próprios deuses enquanto despedem-se do ócio matinal adquirido.
As mulheres atraentes em vestidos florais degustam seus caros vinhos em copos de isopor.
Colunas se erguem nas catedrais de tédio pregadas ao tempo por burocratas felizes;
as semanas correm pelo quarto escuro.

Não há dilema nem predileção nas encruzilhadas, nem canção onde o domingo encruzilha.
As velhas tecem suas sentenças sob o caramanchão
Não há brisa no universo que as humilhe e as corrompa a carne
As agulhas especulam sobre o tecido morto do que não está por vir.
Os olhos brilham nos anteontens para metais escassos e lapidáveis.

Assassinos meritocratas encaram os transeuntes com desprezo, sendo nenhum deles digno de ser morto.
Os jornais vertem inocência e preguiça.
Não há sofrimento nas paredes dos supermercados.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Poemeto

Eu era uma sensação adquirida.
Várias sensações adquiridas.
Sensações, no ocaso, já parcialmente dissolvidas no sangue.
Transmutadas em seus efeitos colaterais,
que eram brandos.
Havia luz lá fora
E as pessoas, em algum lugar da calçada, já reclamavam na entonação típica dos dias de semana. 
Suas cabeças submersas em idiotia perpétua,
mastigando decisões ruins de seus passados.
Eu nem ousava reclamar,
para evitar que meu próprio hálito compusesse o ar já carregado do ambiente
e, além do mais, eu era só uma sensação adquirida.
Foi forçoso levantar.
Meus olhos no espelho refletiam o que fora outrora um sorriso desesperado e constante;
relevei.
Meu cérebro latejava.
Minhas ideias retorciam-se num pandemônio típico dos dias seguintes.

Arrependi-me das súplicas de amor revestidas de tédio da véspera.
Meu espírito latejava e a cafeteira sabotava o silêncio aparente;
as janelas estavam fechadas
mas um ruído abafado ainda transcendia a superfície.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Visão de explicação (já) esquecida

Aproveita enquanto o dia amanhece, não tem solução
Aflitos, seguramos respostas pré-fabricadas
Nossos lábios cerrados sob o céu laranja
Estamos todos aí, estamos sendo extintos pelas declarações.

Queixa #1

Arrependo-me de tudo,
Porque meu primeiro passo foi em falso
E eu sou minha própria conseqüência inerte.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Past Liliu

Não vejo mais os lírios de antigamente

Não pereciam a qualquer geada

Ou enrubesciam ao roubar da chuva.

 

Não sinto mais o cheiro de anteontem,

O gosto amargo do rio de passadas águas

Meu paraíso desfez-se em passado e trapos,

Não há jangadas que me tirem do horror impuro.

 

Eu quero lírios pra dar-te no novo dia,

Já não se nascem outros como de outrora,

Minha pretensão é crua e malevolente,

Como um desejo imerso no cego orgulho.

 

Contemplas casas e dizes que serão suas,

Eu choro e lembro a casa de antigamente,

Aroma doce, hortênsias e hortelãs;

Que trasanteontem já cria não ser mais minha.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O Pornô (24-06-08) 2:56

O pornô é a arte do corpo descompromissada,

Voltas por mundos vãos e prazeres disformes.

É o clímax do artista que não sabe que o é,

Quase um circo ou muito mais se tivesse enredo.

O pornô não é a atriz suando e gemendo,

Nem os closes em sua boceta,

Mas quem vês. Aquela que à noite desejas.

O pornô é sem amor e é genial,

É um suspiro a justificar o dia,

Quase um alento aos obcecados.

Arranca da memória aquelas imagens que tentamos recriar,

O pornô é o fim, é o fundo do poço.

É uma peneira entre a dignidade e o desconforto.