quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pensamentos de Relógio


clin clan clan clon clan clan clin clon
e é assim que o tempo passa.
badaladas que ressoam num infinito que ouvimos e não vemos.
os relógios de corda são sempre pontuais
são guardas da nossa angústia
da nossa pressa
do nosso passado ressoando num infinito que ouvimos e não vemos.
porque é sempre a mesma canção:
clin clan clan clon clan clan clin clon
e o futuro que eu espero ainda não chegou
nem meus dedos estão tão habilidosos
nem meu cérebro tão astuto
nem tão rápida minha fortuna.

Eu presencio a decomposição do meu corpo,
o desespero jazer nos dias de finados,
as calúnias sobre meus parentes mortos,
os sábados escurecerem onde a frustração não tem remédio.

Midas. Oh! Midas.
Vinde.
Prorrogai minha dor.
Afagai meu esforço.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Volta


Onde eu pus minha idiotia?
Apalpo os bolsos e nada,
deixei na outra calça.
A lobotomia migrou dos hospícios para meus armários
e dali para as paredes.
Agora povoam meus bolsos.
Eu vejo e ignoro as câmaras de suicídio assistido pendendo das boates e boutiques,
vejo e ignoro os zumbis dançando rentes ao meio fio, selvagens moribundos.
Os moralistas bradam anedotas sociais de suas poltronas,
seres humanóides arrastam seus sapatos na lava para oeste tal Colombo.
Onde eu pus minha idiotia, minha falsa humanidade e meu isqueiro?
Meu desesperado silêncio e os conceitos incansavelmente engolidos todos os dias: alhures.
Perdi-os e agora maquio minha mente pálida ao passar pelo umbral.
Bons dias, excelentes notícias sobre algum figurão adornado de panos bem costurados.
E eu, aqui, na periferia do pensamento.
Depois de cercar meus instintos e sentimentos como feras,
depois como gado,
depois como cadáveres.
Daí enterro-os e passo a procurar belos epitáfios para justificá-los.
E eis-me aqui apalpando os bolsos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

The 99%

Os cocainômanos postulam evidências de uma nova existência;
As semanas se rasgam proibidas, sob escrutínios celestes pelos maus presságios evoluídos de anteontens sombrios.
E os cocainômanos postulam e elucubram e movimentam seus dedos sobre os espelhos de melancolia.

Rígidos, os amanheceres descascam em percepções tristes e músculos tensionados.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Breve elogio à mentira


Estive meditando nos intervalos dos cafés e decidi que gosto de mentiras; pelo menos parece que as pessoas estão tentando me impressionar.  Há muita gente tediosa por aí e é melhor mesmo que mintam; da minha parte, prefiro viver uma ilusão de quinze minutos que passar o resto do dia pensando como alguém pode suportar a si mesmo sendo tão desinteressante.
Partindo de um ponto de vista mais comercial, firmo ainda mais minha ideia neste posicionamento. As pessoas que conheço (pois só destas posso falar), quando são elas mesmas, o são de graça, sem nenhum fim de vantagem e este tipo de conformismo me incomoda ou, pelo menos, causa comichões no cérebro. Os mentirosos, estes eu admiro, estão à frente, pretendem, rebelam-se contra a realidade; negam o fatual, aumentando consideravelmente suas probabilidades. Qual o mal nisso? Vejo meus amigos e conhecidos, verbalizando seu fetiche pela verdade, mas, eu pergunto: o que há de tão bom nela? Se fosse, a verdade algo imaculado, por que haveria a mentira de existir?
Estarei eu me contradizendo aqui ao dizer sinceramente que gosto da mentira? Não entrarei neste tópico lógico e voltarei às justificativas. Prefiro minhas projeções de mim mesmo à minha presente condição. Apresentar-me como minha projeção futura é como vender uma ação com a promessa de que esta se valorizará. Não é um problema crer numa mentira, basta que ela seja indefectível. Comecei falando de cafés como unidade temporal e, agora, utilizarei esta bebida para finalizar de forma poética este breve excerto axiomático, com o fim de que não digam que não gozo de sentimentos nobres. Uma pobre analogia para arrematar este argumento que já me cansa as mãos: a vida do sujeito é o café fraco com gosto de coador da sua avó (algo irrecusável, mas não por suas qualidades); a mentira é açúcar para a vida e café fraco se carrega de açúcar para que fique tragável. Depois do segundo gole já se idealiza um café decente e, para fins de satisfação, é este café que se está tomando.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Máscara

As pedras da calçada são postas alinhadas
para esconder desvios evidentes;
para evitar pausas (sóbrias frases não ditas no caminho)
adiadas até o canto do próximo passarinho.

E as construções que engolem as estrelas -
assim como o progresso, as luzes, os redemoinhos de crédito -
inclinam-se convictas sobre as cabeças baixas,
que procuram na noite, na calçada e nos próprios bolsos
um vórtice que as engula e não pergunte quanto.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Morte Romântica #1


As estrelas me atravessavam como se eu fosse nada. Ou, posso dizer, eu as atravessava. Aquilo que vivi já venho esquecendo. Meu corpo se desmaterializou e nem lembro como era antes. É um silêncio incompreensível aqui. Não há colisões nem eclipses. Eu vejo tudo como se eu fosse só meus olhos estáticos numa caveira sem músculos. Não tenho mais aptidões nem reflexos. Não lembro de ter testemunhado o colapso do meu corpo. As sutilezas da existência não mais me afogam.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poema complementar. Como traçar um andróide!

Andróides copulam; tentam multiplicar a apatia humana.
Servem-se dos restos de existência jogados sobre os relógios acelerados.
Põem-se inertes na presença da senhoria, indivíduos autômatos, sentimentos sintéticos.
Copulam nos intervalos, nas audiências de grandes processos.
Os ventiladores afagam suas ombreiras;
milhares de trodos: burocracias do amor.
A matemática do prazer carnal, do prazer despido, da súbita mudança de endereço.
Uma nova parceria. Um fluido sabor metano.