Os cocainômanos postulam evidências de uma nova existência;
As semanas se rasgam proibidas, sob escrutínios celestes pelos maus presságios evoluídos de anteontens sombrios.
E os cocainômanos postulam e elucubram e movimentam seus dedos sobre os espelhos de melancolia.
Rígidos, os amanheceres descascam em percepções tristes e músculos tensionados.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Breve elogio à mentira
Estive meditando nos intervalos dos cafés e decidi que gosto de mentiras; pelo menos parece que as pessoas estão tentando me impressionar. Há muita gente tediosa por aí e é melhor mesmo que mintam; da minha parte, prefiro viver uma ilusão de quinze minutos que passar o resto do dia pensando como alguém pode suportar a si mesmo sendo tão desinteressante.
Partindo de um ponto de vista mais comercial, firmo ainda mais minha ideia neste posicionamento. As pessoas que conheço (pois só destas posso falar), quando são elas mesmas, o são de graça, sem nenhum fim de vantagem e este tipo de conformismo me incomoda ou, pelo menos, causa comichões no cérebro. Os mentirosos, estes eu admiro, estão à frente, pretendem, rebelam-se contra a realidade; negam o fatual, aumentando consideravelmente suas probabilidades. Qual o mal nisso? Vejo meus amigos e conhecidos, verbalizando seu fetiche pela verdade, mas, eu pergunto: o que há de tão bom nela? Se fosse, a verdade algo imaculado, por que haveria a mentira de existir?
Estarei eu me contradizendo aqui ao dizer sinceramente que gosto da mentira? Não entrarei neste tópico lógico e voltarei às justificativas. Prefiro minhas projeções de mim mesmo à minha presente condição. Apresentar-me como minha projeção futura é como vender uma ação com a promessa de que esta se valorizará. Não é um problema crer numa mentira, basta que ela seja indefectível. Comecei falando de cafés como unidade temporal e, agora, utilizarei esta bebida para finalizar de forma poética este breve excerto axiomático, com o fim de que não digam que não gozo de sentimentos nobres. Uma pobre analogia para arrematar este argumento que já me cansa as mãos: a vida do sujeito é o café fraco com gosto de coador da sua avó (algo irrecusável, mas não por suas qualidades); a mentira é açúcar para a vida e café fraco se carrega de açúcar para que fique tragável. Depois do segundo gole já se idealiza um café decente e, para fins de satisfação, é este café que se está tomando.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Máscara
As pedras da calçada são postas alinhadas
para esconder desvios evidentes;
para evitar pausas (sóbrias frases não ditas no caminho)
adiadas até o canto do próximo passarinho.
E as construções que engolem as estrelas -
assim como o progresso, as luzes, os redemoinhos de crédito -
inclinam-se convictas sobre as cabeças baixas,
que procuram na noite, na calçada e nos próprios bolsos
um vórtice que as engula e não pergunte quanto.
para esconder desvios evidentes;
para evitar pausas (sóbrias frases não ditas no caminho)
adiadas até o canto do próximo passarinho.
E as construções que engolem as estrelas -
assim como o progresso, as luzes, os redemoinhos de crédito -
inclinam-se convictas sobre as cabeças baixas,
que procuram na noite, na calçada e nos próprios bolsos
um vórtice que as engula e não pergunte quanto.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Morte Romântica #1
As estrelas me atravessavam como se eu fosse nada. Ou, posso dizer, eu as atravessava. Aquilo que vivi já venho esquecendo. Meu corpo se desmaterializou e nem lembro como era antes. É um silêncio incompreensível aqui. Não há colisões nem eclipses. Eu vejo tudo como se eu fosse só meus olhos estáticos numa caveira sem músculos. Não tenho mais aptidões nem reflexos. Não lembro de ter testemunhado o colapso do meu corpo. As sutilezas da existência não mais me afogam.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Poema complementar. Como traçar um andróide!
Andróides copulam; tentam multiplicar a apatia humana.
Servem-se dos restos de existência jogados sobre os relógios acelerados.
Põem-se inertes na presença da senhoria, indivíduos autômatos, sentimentos sintéticos.
Copulam nos intervalos, nas audiências de grandes processos.
Os ventiladores afagam suas ombreiras;
milhares de trodos: burocracias do amor.
A matemática do prazer carnal, do prazer despido, da súbita mudança de endereço.
Uma nova parceria. Um fluido sabor metano.
Servem-se dos restos de existência jogados sobre os relógios acelerados.
Põem-se inertes na presença da senhoria, indivíduos autômatos, sentimentos sintéticos.
Copulam nos intervalos, nas audiências de grandes processos.
Os ventiladores afagam suas ombreiras;
milhares de trodos: burocracias do amor.
A matemática do prazer carnal, do prazer despido, da súbita mudança de endereço.
Uma nova parceria. Um fluido sabor metano.
Para ler dormindo.
Estão todos certos; estão todos errados. Sonos profundos, concomitantes roncares sinceros.Cada percepção, após o despertar, a maior expressão da verdade. No entanto, carregam o peso dos seus anos e dos milênios alheios; os bolsos são pequenos para as mãos inquietas e não há papel no mundo que baste para transcrever seus pensamentos, porque quem vela o sono de um, vela o sono de todos.
Hoje, quando retirarem-se magoados de seus galpões ensopados de lembranças pesadas, desfalecerão à alvorada calma e vil que virá os cegar. Verão, pois, o ontem denovo, e, sem saber, verão também o amanhã. Estarão amaldiçoados por seus companheiros eternos: passado e especulações. Presos no eterno tubo helicoidal do tempo que povoam sem saber porquê. Em cada canto estarão condenados a ver a si mesmos, e em cada novidade, o óbvio.
domingo, 12 de junho de 2011
Setenta e três
nós que não sabemos os dias dos santos,
os feriados nacionais e os hinos da comunidade;
somos as crianças a titubear no mundo.
estamos podres de momentos felizes.
os feriados nacionais e os hinos da comunidade;
somos as crianças a titubear no mundo.
estamos podres de momentos felizes.
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