sexta-feira, 29 de julho de 2011

Máscara

As pedras da calçada são postas alinhadas
para esconder desvios evidentes;
para evitar pausas (sóbrias frases não ditas no caminho)
adiadas até o canto do próximo passarinho.

E as construções que engolem as estrelas -
assim como o progresso, as luzes, os redemoinhos de crédito -
inclinam-se convictas sobre as cabeças baixas,
que procuram na noite, na calçada e nos próprios bolsos
um vórtice que as engula e não pergunte quanto.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Morte Romântica #1


As estrelas me atravessavam como se eu fosse nada. Ou, posso dizer, eu as atravessava. Aquilo que vivi já venho esquecendo. Meu corpo se desmaterializou e nem lembro como era antes. É um silêncio incompreensível aqui. Não há colisões nem eclipses. Eu vejo tudo como se eu fosse só meus olhos estáticos numa caveira sem músculos. Não tenho mais aptidões nem reflexos. Não lembro de ter testemunhado o colapso do meu corpo. As sutilezas da existência não mais me afogam.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poema complementar. Como traçar um andróide!

Andróides copulam; tentam multiplicar a apatia humana.
Servem-se dos restos de existência jogados sobre os relógios acelerados.
Põem-se inertes na presença da senhoria, indivíduos autômatos, sentimentos sintéticos.
Copulam nos intervalos, nas audiências de grandes processos.
Os ventiladores afagam suas ombreiras;
milhares de trodos: burocracias do amor.
A matemática do prazer carnal, do prazer despido, da súbita mudança de endereço.
Uma nova parceria. Um fluido sabor metano.

Para ler dormindo.

    Estão todos certos; estão todos errados. Sonos profundos, concomitantes roncares sinceros.Cada percepção, após o despertar, a maior expressão da verdade. No entanto, carregam o peso dos seus anos e dos milênios alheios; os bolsos são pequenos para as mãos inquietas e não há papel no mundo que baste para transcrever seus pensamentos, porque quem vela o sono de um, vela o sono de todos.
    Hoje, quando retirarem-se magoados de seus galpões ensopados de lembranças pesadas, desfalecerão à alvorada calma e vil que virá os cegar. Verão, pois, o ontem denovo, e, sem saber, verão também o amanhã. Estarão amaldiçoados por seus companheiros eternos: passado e especulações. Presos no eterno tubo helicoidal do tempo que povoam sem saber porquê. Em cada canto estarão condenados a ver a si mesmos, e em cada novidade, o óbvio.

domingo, 12 de junho de 2011

Setenta e três

nós que não sabemos os dias dos santos,
os feriados nacionais e os hinos da comunidade;
somos as crianças a titubear no mundo.
estamos podres de momentos felizes.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Abandonei a métrica (adeus querida amiga)

O Bolero de Ravel é a melhor música para se ouvir
deitado em um tapete, olhando pro teto.
Aqui na cidade uns só precisam de um tapete
e outros de um teto.
Logo ali, no canto, quem já os possui,
só precisa aprender a usar um tapete e um teto.
E arranjar um bom toca-fitas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Tédio matinal segunda-feira (04-04-11)

As pessoas se arrastando no passeio deixam, ao observador, subentendida sua insatisfação com o destino do arrasto, sua casa ou trabalho; porque se arrastam na ida, no início da manhã, e na volta, no final da tarde. Eu costuro entre elas e vejo seus rostos de tédio, e é um tédio contra todos, que bloqueia o mundo com seus punhos sonolentos. Elas poderiam estar contemplando o mundo, você diria, mas caminham num estado de neutralidade e impermeabilidade que isto nem poderia ser cogitado. Há aqueles que caminham sem rumo e estes também estão entediados; poderiam se dar ao luxo da autocontemplação ou da exocontemplação, mas não o fazem. É possível que este estado de espírito seja um fenômeno de tráfego - no ir e vir não se tem tempo para pensar e há descordenação em caminhar e esboçar satisfação com algo ao mesmo tempo -, assim como é possível que não.