quinta-feira, 10 de março de 2011

Japas

Quero deitar no auge dos anos oitenta e olhar para você numa crise de antropofobia:
Onde colônias humanas se retraem nas segundas-feiras estéreis;
Onde japas sanguessugas destroem os condomínios de culturas obsoletas;
Onde os sábados são nauseabundos e os suicídios controlados;
Onde é imoral discutir em sobriedade sobre a frustração da existência.

Os mágicos congelam a audiência em estado de êxtase.
As pombas trafegam sob os automóveis emocionalmente envolvidos.
Janelas escondem o que é abstrato na rua e os amantes se jogam dos meios-fios dentro dos sinais vermelhos.

Reféns do mainstream deleitam-se na comodidade das poltronas razoavelmente confortáveis em seus apartamentos ainda não entregues,
Sorriem para suas etiquetas bordadas numa senzala asiática infestada de fumaça de incenso e cigarros baratos,
Percebem sua disfunção sináptica e culpam todos os governos do mundo,
Despem-se nos corredores das franquias estrangeiras e exibem-se nas vitrines domésticas com seus pertences restaurados.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

La Bureaucratie

Atravesso as portas giratórias ouvindo absurdos genéricos sobre a existência.
Os guardas armados se distraem com as morenaças e eu posso tomar de assalto toda a frustração do mundo.
As asperezas vagueiam nos elevadores de impaciência,
Divisórias permanecem tranquilas discutindo Camus enquanto burocratas eunucos trafegam e tramitam suas preces.
Há mulheres deslizando em suas advertências e homens de aparência apressada e, paradoxalmente, autocrática.
Nada compõe mais absurdamente o ambiente que as secretárias arrogantes sentadas sobre as graduações alheias e observando seus impérios com desprezo.
Ad infinitum os telefones tocam imbecis, planilhas compreendem a mácula da raça humana e os supervisores subtraem das prateleiras sujas o último remédio para o tédio eterno de existir.

Os setores se empurram uns aos outros dos precipícios tardios.
Colinas se abrem no horizonte através do vidro pelo qual imaginam arremessar-se os infelizes duendes do funcionalismo.
Os leitos estão vazios pois ninguém se dá ao trabalho de realmente adoecer.
As semanas sangram nos meio-fios escorregadios e o Deus-Sol é ovacionado ao beber seu sangue.
Não há contradição na apatia.
Flatline. Flatline. Flatline.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Visão de Fevereiro I

Os telefones injetam carícias
e os nefelibatas matutos adoram seus próprios deuses enquanto despedem-se do ócio matinal adquirido.
As mulheres atraentes em vestidos florais degustam seus caros vinhos em copos de isopor.
Colunas se erguem nas catedrais de tédio pregadas ao tempo por burocratas felizes;
as semanas correm pelo quarto escuro.

Não há dilema nem predileção nas encruzilhadas, nem canção onde o domingo encruzilha.
As velhas tecem suas sentenças sob o caramanchão
Não há brisa no universo que as humilhe e as corrompa a carne
As agulhas especulam sobre o tecido morto do que não está por vir.
Os olhos brilham nos anteontens para metais escassos e lapidáveis.

Assassinos meritocratas encaram os transeuntes com desprezo, sendo nenhum deles digno de ser morto.
Os jornais vertem inocência e preguiça.
Não há sofrimento nas paredes dos supermercados.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Antessala

               Atrizes pululam na antessala, gritam histéricas por tons pastéis e de vermelho. As crianças riem do velho manco que boicota seu andar prolongando sua existência. Os rostos são todos parecidos. Os olhos todos brilham de ódio e ironia. O quarto esfacela-se em meio aos anteontens. Os comerciantes apressados dispensam suas secretárias. Mulheres desempregadas vagueiam o olhar sobre os edifícios de jade. Não há discórdia nas testas dos homens. Não deveria haver discórdia em suas roupas extravagantes. As pupilas dilatam-se e se retraem; mais uma nuvem. Não há teto na antessala. Há atrizes histéricas brigando por um alfajor rejeitado. Um cortejo de viúvas desnudas e jóqueis aposentados bradam orações ao deus sol. Os seios caídos e as atrizes na antessala. Eu mesmo amo uma delas, mas não consigo distingui-las. São todas atrizes e estão todas choramingando em epopeias magníficas seus olhares distantes de Helena. Todas, agora, em seus teares delicados. Com suas mãos delicadas e suas dicções perfeitas, cantando contradições aos David Bowies que trafegam dentro de seus trajes cor-de-rosa. Segmentam seus pensamentos em antes e fracasso, diluem as decepções em frascos semivazios; negam a própria cicatriz e abraçam Schopenhauer como se abraçassem um cão que as velasse à noite enquanto perambulam entre as camas de conhecidos fedendo a cigarro e desconhecidos com hálito de menta, e preambulam todos seus afazeres. As crianças esquecem o velho manco e se atêm assustadas ao navio que aporta e despede-se de casa. Abrem-se as portas. A rotunda está livre. Camarões esperando para deleitar figurinos desconhecidos. Velhas famélicas circundam os indefesos canapés. Há fogo na antessala, mas estão todos em segurança. A rotunda retém os passageiros. Um a um eles se decompõem sob o deus sol. Aves migratórias esperam a coluna de fumaça do fogo que é mansamente controlado; nem um busto se lhe erguerá. Havia fogo na antessala, mas ele já foi esquecido com a antessala. O caos ressoa fora dos pavimentos. Os comerciantes postulam. As atrizes acatam. As crianças regozijam-se com qualquer coisa. Os camarões pereceram.
            Uma das atrizes ergue sua taça engordurada. Um brinde. Não consigo ver direito do quarto. É o que parece. Tece frases sorridentes, com olhos intermitentemente fechados. Não as ouço, mas riem. Os comerciantes estão indefesos, mais despidos que as viúvas. Entram os clérigos, antecedendo o deus sol, que os persegue serenamente. Não há cicatrizes no seu rosto coberto por elaborada máscara. Não devem haver. As crianças formam triângulos em grupos de nove. As mulheres desempregadas continuam desempregadas; seus olhares, porém, vagueiam sobre outros edifícios. Orgânicas criaturas, todas elas sutilmente distribuídas na varanda das estruturas de concreto, assistem do outro lado da rua a cerimônia introduzida na antessala. O deus sol pede um filé de peixe grelhado e uma coca-cola. Seus dedos do pé tamborilam em seus chinelos elaborados. Não há distração nos olhos que restam descrever. Pousam todos sobre a carniça carcomida que descansa no parapeito. A janela está impecavelmente limpa e, por isso, o espetáculo é prazeroso.          Não há senso de realidade na antessala. As crianças escrevem no pó químico obscenidades sobre governos estrangeiros. Os jóqueis aposentados rolam nas cinzas dos pilares. Não se dizem disparates como os ditos na antessala. Na rotunda, só pensamentos coagulados. Não há arrependimentos, não há movimento fora o levantar e abaixar de copos, o inclinar e desinclinar de garrafas, o inclinar e desinclinar de cabeças, o assentir e o recolher-se para a antessala.
           
           Ouso me retirar. A rua é o pálido calabouço das mentes inseguras, presas numa projeção inverossímil de sucessos contínuos seja qual for o negócio. As pombas se revezam por atenção nos umbrais mal conservados dos prédios de outros séculos; séculos de glórias esquecidas ou cristalizadas em feriados castradores de novos eventos. Há tanta glória no passado das ruas que não sobra um dia para que uma nova glória aflore. A promoção, o beijo, o assalto bem sucedido. Eventos todos dignos de feriado. Não para os sabichões que compõem as mesas da antessala. Os coquetéis são gloriosos, os garçons competentes, a sola do sapato do rei sol é saborosa e macia. “Vejam, ele pisou na minha cara!”, “Oh! Mas que honraria”.
            Prefiro o vento gelado da rua agredindo meus conceitos sobre o inverno e o verão. É difícil correr entre tantas portas e escolher uma que seduza a cruzá-la. É preciso um motivo. Um motivo feliz ou enfadonho que venha a se transformar no futuro num ato da pior vilania que olvide as glórias do passado e se presencie o advento de um novo feriado. Não digo as padarias e os mercados, os açougues e despachantes. As outras portas que se abrem por segundos, por uma miríade de motivos, as que se fecham pela última vez padecendo ao ostracismo programado, à benéfica bolha exponencial de progresso irresponsável. Mortas as lembranças de mais um imóvel inocente. Só restam as folhas do cinamomo para contar a saga de um velho edifício que, mais que os melhores patriarcas, manteve unido o caos e o desespero.
            Sob o céu preto e salpicado de açúcar cristal, na madrugada gelada que não pergunta se eu aceito um café, o tempo para apesar do relógio de corda do corredor de carpet. E é possível ouvir o eco dos sonhos de anteontem perfurando as camadas superficiais da força de vontade e penetrando numa época que não os pertence.
            Segue o cortejo do novo deus pela avenida iluminada por mercúrio aquecido. Os sábados são irresponsáveis, os motoristas dormem sobre as buzinas. Estão todos entediados. “Não queremos novidades”, “É, pintem o antigo de uma cor diferente e nos o devolva.” As invenções natimortas chovem pelas janelas em murmúrios de frustração magnífica e genial. Ainda não é tempo de precisarmos disso. Ainda não queremos precisar disso. Ainda podemos achar novidades nas gloriosas caixas de geladeira-naves espaciais. Ideias coagulam e esperam o momento de jorrar obsolênscias nas residências e balcões. O amanhã já foi inventado. Não há novidade nas ruas. Não há novas glórias e, portanto, novos feriados. Um viva aos patriarcas mortos! Um viva aos velhos ditadores e novos heróis!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

79 - Au

As pepitas de ouro misturadas com metais menos atraentes, transformadas em pulseiras bem acabadas, irradiam o sol e as luzes exageradas para olhares seletivos que as procuram como suínos ansiosos por ração de milho; atrás das vitrines excessivamente polidas que não refletem o próprio espectador, descansam em prateleiras carregadas de adornos indutivos e filosofias de vida como um fast food existencial. Atenuam a algazarra humana, convidando adeptos do brilho incessante a silenciar-se diante do velho amor táctil e redundantemente platônico, a fazer salivar seus bolsos e a regozijar-se no prazer eterno de guardar os résumés sentimentais em prateleiras atulhadas com ex-sonhos e roupas que não serviram depois do exagero no foie gras (noutra terça-feira, insignificante como esta, porém úmida, passada sob a sombra de um carvalho que foi transferido de uma reserva federal para o pacífico jardim reservado onde poderia competir com alucinações olfativas causadas pelo exagero de vinho e meticulosas especulações sobre quem realmente teve culpa pelo corte irregular da grama perto do muro leste). Os detalhes foram traçados por um ourives miserável e arrogante, cujas mãos temem a ausência do talhar diário, do construir salva-vidas, do fabricar significados; ninguém se lembrará dele.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Heteronomia (um brevíssimo esboço do que pode vir a ser)

Heteronomia só é vício do outro lado da rua. Na calçada vitrine. Do lado de cá não é vício, tampouco virtude; é imperceptível. Também não chega a ser imperceptível no sentido que não possamos perceber, mas que não queremos vir a perceber. O indivíduo crê, estupidamente, na sua autodeterminação; crê que além de ser a própria bússola é, também, a própria jangada e correnteza. Isso é uma falácia de pessoas previamene untadas com vontades implantadas e desejos coletivos. Não creio que seja uma falha de caráter assentir inertemente ou ajoelhar-se diante do cetro da realeza (seja o que for a realeza); mas percebo que é a mais poética virtude o deslocar-se ao ermo da autodeterminação plena.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Poemeto

Eu era uma sensação adquirida.
Várias sensações adquiridas.
Sensações, no ocaso, já parcialmente dissolvidas no sangue.
Transmutadas em seus efeitos colaterais,
que eram brandos.
Havia luz lá fora
E as pessoas, em algum lugar da calçada, já reclamavam na entonação típica dos dias de semana. 
Suas cabeças submersas em idiotia perpétua,
mastigando decisões ruins de seus passados.
Eu nem ousava reclamar,
para evitar que meu próprio hálito compusesse o ar já carregado do ambiente
e, além do mais, eu era só uma sensação adquirida.
Foi forçoso levantar.
Meus olhos no espelho refletiam o que fora outrora um sorriso desesperado e constante;
relevei.
Meu cérebro latejava.
Minhas ideias retorciam-se num pandemônio típico dos dias seguintes.

Arrependi-me das súplicas de amor revestidas de tédio da véspera.
Meu espírito latejava e a cafeteira sabotava o silêncio aparente;
as janelas estavam fechadas
mas um ruído abafado ainda transcendia a superfície.