terça-feira, 26 de abril de 2011

Louros

Uma inspirada profunda
e os olhos se fecham no incessante ruído da urbe,
não mais me cega o sol outonal e vem,
tímido, em gotículas, o vento me refrescar os braços.
Aos olhos se decompõem a rua e os semáforos;
e um sinal aberto é sempre um bom sinal.
Seguem, matinais, as pernas cobertas de jeans,
alternando-se convictas e tensas.
A brisa não causa comoção
e quase não há brisa onde esta ainda comove.
É natural aprazer-me as coisas naturais
e delas subtrair a verdadeira existência;
mas como decantar o mundo ou pô-lo em repouso?
ou livrar-me do paradoxo de que tudo é natural e nada é natural?
Eu sou você, na mesma proporção que você é você.
Vivo neste planeta e mereço tudo que dele advém;
não merecesse, por que haveria de, em todo ele, viver?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Monstro

Seu cérebro contém mil vontades e desejos irrealizáveis;
pela traquéia saem mil contradições humanas, todas aceitas e reprimidas.
No estômago guarda a miséria dos crentes e a saciedade dos clérigos.
Mil pragas açoitaram a pele e mil brisas lhe vieram refrescar da ardência.
Nos braços: fábricas, forjas, arados
repetindo os mesmos movimento e obra, denominando-os diversamente.
Seus pés feitos de carruagens, foguetes, carros e cavalos
rumando, sem cessar, para a incerteza.
Nos olhos amontoam-se as cameras, os televisores e a poesia,
que apontam para todos os lados,
distraídos e hedônicos, estão obcecados pela trajetória.

terça-feira, 5 de abril de 2011

The Cake is a Lie

Enfiar-me num claustro monástico
e resolver todos os meus problemas.
Os religiosos não são seres universais;
são camundongos trafegando num labirinto
and the cake is a lie.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

02/02/11

Porque os dias já nasciam todos iguais há algum tempo, ela se deitou mais uma vez como sempre se deitava àquele horário naquele dia. Era uma tarde smooth jazz com pessoas smooth jazz, todas lá fora. Havia cansaço nos seus lábios proeminentes que não formavam palavra. Havia resolução na disposição dos móveis do quarto, mas aquilo era uma forma de maquiar seus sentimentos sempre fervilhantes. O impulso que a fez se jogar sobre os lençóis e acolchoados cuidadosamente escolhidos, não foi o que a fez decorar o quarto. Ela tinha percepção. Sabia que atuava e o quanto. Eram sete e dezesseis do horário de verão infernal. Das têmporas de todas as pessoas do universo parecia estar escorrendo suor e desânimo.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Crepúsculo em 17 de março

Desfaço as malas no presente absurdo e agonizante,
Pensamentos poluem inocentes papéis arranjados simetricamente.
O pânico comunitário ocupa na próxima esquina o lugar das mulheres impacientes em seus sapatos determinantes.
Na paisagem trêmula vê-se meninos arrogantes ostentando seus devices.
A tecnologia obscena exibe os seios para o futuro imberbe.
Num aquário, as juízas do invisível gozam perpétuas verdades.
Itinerários são traçados sobre o arcabouço autocontemplativo sem que este se ilumine.
Lobos aglomeram-se nos bares implorando por saúde e desfazem seu rosto suado num colérico sorriso.

Num período fronteiriço onde há paz social e intranquilidade,
onde a esquizofrenia urbana se une ao otimismo dos ébrios:
as pessoas de acetato subordinam-se ao cansaço e projetam seu mau-humor no ir e vir das suas contradições.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Japas

Quero deitar no auge dos anos oitenta e olhar para você numa crise de antropofobia:
Onde colônias humanas se retraem nas segundas-feiras estéreis;
Onde japas sanguessugas destroem os condomínios de culturas obsoletas;
Onde os sábados são nauseabundos e os suicídios controlados;
Onde é imoral discutir em sobriedade sobre a frustração da existência.

Os mágicos congelam a audiência em estado de êxtase.
As pombas trafegam sob os automóveis emocionalmente envolvidos.
Janelas escondem o que é abstrato na rua e os amantes se jogam dos meios-fios dentro dos sinais vermelhos.

Reféns do mainstream deleitam-se na comodidade das poltronas razoavelmente confortáveis em seus apartamentos ainda não entregues,
Sorriem para suas etiquetas bordadas numa senzala asiática infestada de fumaça de incenso e cigarros baratos,
Percebem sua disfunção sináptica e culpam todos os governos do mundo,
Despem-se nos corredores das franquias estrangeiras e exibem-se nas vitrines domésticas com seus pertences restaurados.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

La Bureaucratie

Atravesso as portas giratórias ouvindo absurdos genéricos sobre a existência.
Os guardas armados se distraem com as morenaças e eu posso tomar de assalto toda a frustração do mundo.
As asperezas vagueiam nos elevadores de impaciência,
Divisórias permanecem tranquilas discutindo Camus enquanto burocratas eunucos trafegam e tramitam suas preces.
Há mulheres deslizando em suas advertências e homens de aparência apressada e, paradoxalmente, autocrática.
Nada compõe mais absurdamente o ambiente que as secretárias arrogantes sentadas sobre as graduações alheias e observando seus impérios com desprezo.
Ad infinitum os telefones tocam imbecis, planilhas compreendem a mácula da raça humana e os supervisores subtraem das prateleiras sujas o último remédio para o tédio eterno de existir.

Os setores se empurram uns aos outros dos precipícios tardios.
Colinas se abrem no horizonte através do vidro pelo qual imaginam arremessar-se os infelizes duendes do funcionalismo.
Os leitos estão vazios pois ninguém se dá ao trabalho de realmente adoecer.
As semanas sangram nos meio-fios escorregadios e o Deus-Sol é ovacionado ao beber seu sangue.
Não há contradição na apatia.
Flatline. Flatline. Flatline.